sexta-feira, 10 de abril de 2026

Dieta enteral: o que é, indicação, tipos (e como é feita)

A dieta enteral, ou nutrição enteral, é um tipo de alimentação que permite administrar todos os nutrientes, ou parte deles, sendo indicada para pessoas que não conseguem obter os nutrientes adequados com a alimentação normal.

Essa dieta é administrada através de um tubo, ou sonda de alimentação, que normalmente é colocada desde o nariz, ou da boca, até o estômago ou intestino. A dieta enteral também pode ser administrada por gastrostomia ou jejunostomia.

Leia também: Gastrostomia: o que é, como alimentar e cuidados com a sonda tuasaude.com/gastrostomia

Existem diferentes tipos de dieta enteral, como artesanal ou industrializada, que devem ser indicadas pelo médico ou nutricionista conforme o estado clínico da pessoa, as necessidades nutricionais, os tipos de dispositivo e a localização da sonda.

Imagem ilustrativa número 3

Quando é indicada

A dieta enteral pode ser indicada em situações como:

  • Pessoas hospitalizadas em estado crítico, devendo ser iniciada nas primeiras 24 a 48 horas de internação;
  • Pessoas hospitalizadas com risco nutricional;
  • Pessoas em domicílio sem condições de alimentação oral adequada e adequação nutricional igual ou inferior a 60% da meta, como em casos de disfagia devido a doenças neurológicas, cardíacas e câncer do trato gastrointestinal;
  • Pessoas desnutridas ou com alto risco nutricional, com aceitação oral abaixo de 60% das necessidades por 1 a 2 semanas;
  • Idosos, quando a via oral é contraindicada ou quando a ingestão de alimentos por via oral for deficiente por mais de 3 dias seguidos;
  • Idosos que necessitam de grande oferta de nutrientes para recuperar a saúde e que não estão adequadamente supridas pela alimentação oral, como em casos de cicatrização de feridas, sarcopenia, grandes cirurgias e queimaduras;
  • Idosos, quando a alimentação e a suplementação não atendem as necessidades diárias de energia e proteínas, ou quando esse aporte calórico extra for necessário para melhorar a qualidade de vida;
  • Idosos, quando a alimentação oral aumenta o risco de broncoaspiração e pneumonia aspirativa;
  • Pessoas com câncer e que não conseguem comer nenhum alimento por mais de 1 semana, ou ingerir menos de 60% da necessidade diária por mais de 2 semanas mesmo após aconselhamento e uso de suplementos orais;
  • Pessoas com diabetes, iniciada em 24 a 48 horas, quando a alimentação oral for contraindicada ou insuficiente por 3 a 7 dias, mesmo com o uso de suplementos;

A dieta enteral também pode ser indicada para idosos, quando a ingestão de alimentos por via oral é impossível, como em casos de lesões graves de cavidade oral, cirurgias de face e/ou cabeça e pescoço, obstruções completas de trato gastrintestinal e fístulas com grande perda de líquido.

A dieta enteral é indicada para pessoas que não conseguem satisfazer as necessidades nutricionais com a alimentação normal, pela via oral. No entanto, o intestino da pessoa precisa estar funcionando bem parcial ou totalmente.

Além disso, também se pode oferecer a dieta enteral, de forma gradativa, como forma de transição entre a nutrição parenteral, à medida em que a tolerância da pessoa apresenta melhora.

Diferença entre dieta enteral e parenteral

A dieta parenteral, ou nutrição parenteral, é um método de alimentação feito por via intravenosa, onde os nutrientes, ou parte deles, são administrados diretamente na corrente sanguínea, por meio de um cateter venoso.

Este tipo de dieta é indicada quando o trato gastrointestinal da pessoa não possui condições adequadas para absorver nutrientes ou quando a via enteral é contraindicada ou inviável.

Leia também: Nutrição parenteral: o que é, para que serve e como administrar tuasaude.com/nutricao-parenteral

Já na dieta enteral os nutrientes são oferecidos diretamente no trato digestivo, por meio de sondas ou ostomias. Este tipo de dieta normalmente é a preferida por ter menor custo e efeitos benéficos na preservação da integridade da mucosa intestinal e da imunidade.

Tipos de dieta enteral

Os tipos de dieta enteral variam conforme o preparo e a composição nutricional.

1. Tipos de dieta enteral quanto ao preparo

A tabela a seguir traz os tipos de dieta conforme o preparo:

Tipo de dieta O que é Vantagens Desvantagens
Dieta artesanal ou caseira É a dieta feita a partir de alimentos in natura, como carnes, legumes, frutas, leite e óleos, que são liquidificados e coados para administração pela sonda. Pode ter um custo financeiro aparentemente menor e permite uma grande individualização da fórmula quanto à composição nutricional e ao volume. É muito difícil garantir o alcance da quantidade exata de proteínas e calorias; pode ficar muito viscosa e obstruir a sonda e apresenta um alto risco de contaminação microbiológica.
Dieta industrializada de sistema fechado É uma dieta estéril, envasada industrialmente em um recipiente hermeticamente fechado e adequado para conexão direta ao equipo de administração. Menor risco de desperdício e contaminação microbiológica, e garante a precisão das calorias e proteínas prescritas. Não oferece facilidade de individualização de volume e composição nutricional exata que uma dieta artesanal ou manipulada permite; Tem um custo aparentemente maior.
Dieta industrializada de sistema aberto

São fórmulas industriais que requerem manipulação antes da administração.

Podem ser na forma de pó, que exige reconstituição com água filtrada ou mineral, ou líquidas em frascos, garrafas ou latas, que precisam ser transferidas para o frasco de alimentação da pessoa.

Pode ser encontrada tanto na forma líquida quanto em pó, permitindo a reconstituição seguindo uma prescrição dietética específica;

Pode ser preparada e administrada tanto no hospital quanto no ambiente domiciliar;

Pode ser usado de forma segura, desde que sejam adotados procedimentos rigorosos de higiene e manuseio durante o preparo e administração.

Possui maior risco de contaminação e validade mais curta após o preparo;

Possui alto índice de desperdício e fornece, em média, apenas 74% do volume de dieta prescrito, o que pode dificultar que a pessoa atinja a sua necessidade calórica diária;

Necessita de lavagem rigorosa do equipo após a infusão de cada frasco de dieta, para evitar o acúmulo de resíduos que favorecem o crescimento de bactérias.

Dieta industrializada de sistema misto Combina a dieta artesanal com dietas industrializadas ou módulos nutricionais industrializados (como adição de proteína em pó ou carboidratos à sopa liquidificada)

Garante que uma parte dos nutrientes essenciais seja fornecida de forma precisa por meio dos produtos industrializados.

É uma boa opção para uso domiciliar quando a família precisa usar a via artesanal, mas a equipe de saúde precisa garantir uma quantidade mínima segura de nutrientes

Só pode ser indicada se a moradia apresentar boas condições higiênico-sanitárias;

É contraindicada se a pessoa estiver desnutrida, tiver lesão por pressão (escaras) ou tiver uma meta nutricional alta (acima de 2000 calorias diárias);

O paciente A pessoa precisa de acompanhamento rigoroso e frequente da equipe multiprofissional;

Maior risco de contaminação microbiológica e instabilidade física, que pode obstruir a sonda, e instabilidade organoléptica, quando comparada ao uso exclusivo de dietas industrializadas.

A escolha do tipo de dieta enteral deve ser baseada nas condições clínicas da pessoa, no ambiente em que a terapia será administrada, na necessidade de garantir o aporte nutricional prescrito e na redução dos riscos de contaminação.

2. Tipos quanto à composição

Conforme a composição, os tipos de dieta enteral são:

  • Fórmulas padrão (polimérica): são as que contém proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas e minerais, e também pode ter fibras alimentares, conforme as recomendações para uma população saudável;
  • Fórmulas modificadas (ou especializadas): são as que sofreram alterações na composição, como redução, aumento ou isenção de determinados nutrientes, para atender necessidades especiais devido à alterações metabólicas ou doenças;
  • Módulos nutricionais: são compostas por apenas um grupo de nutrientes, como módulo apenas de proteína, apenas de carboidrato, apenas de lipídio ou apenas de fibras, por exemplo. Servem para adequar uma dieta que esteja deficiente em um nutriente específico;
  • Dieta enteral oligomérica ou elementar: onde a proteína já vem quebrada em peptídeos ou aminoácidos, sendo indicada para pessoas com dificuldade de digestão ou absorção intestinal;

Existe também a dieta imunomoduladora, que é uma dieta enteral enriquecida com nutrientes específicos, como a arginina, o ômega 3, os nucleotídeos e a glutamina. O objetivo desta dieta é modular a resposta inflamatória, melhorar a função imunológica e ajudar na cicatrização.

Como administrar a dieta enteral

A dieta enteral pode ser administrada por meio de sonda nasoenteral ou nasogástrica ou ostomia (gastrostomia e jejunostomia), conforme a estabilidade clínica da pessoa, os tipos de dispositivo e a localização da sonda.

As formas de administração da dieta enteral são a contínua, que geralmente é de 12 a 24 horas e com bomba de infusão e a intermitente gravitacional ou em bolus, que é fracionado geralmente de 4 a 6 vezes por dia, em intervalos mínimos de três horas.

A dieta enteral também pode ser administrada na forma cíclica onde a infusão é contínua durante um período fixo do dia, como, por exemplo, por 10 horas durante a noite.

Cuidados durante a dieta enteral

Alguns cuidados importantes durante o uso da dieta enteral são:

  • No hospital, conferir no rótulo o nome da pessoa, o número do leito, a composição, o volume, a velocidade de infusão e o prazo de validade, conforme a prescrição médica ou nutricional;
  • Confirmar a localização e a permeabilidade da sonda antes de iniciar a infusão da dieta;
  • Posicionar a pessoa com a cabeceira da cama elevada a um ângulo entre 30º e 45º, durante a administração da dieta e 30 a 40 minutos após o término, para reduzir o risco de refluxo, regurgitação e pneumonia aspirativa;
  • Lavar o dispositivo com, no mínimo 20 ml de água mineral ou filtrada antes e após a administração da dieta, para garantir a permeabilidade e evitar obstruções;
  • Lavar corretamente as mãos e desinfectar as conexões da sonda e do equipo com álcool 70%;
  • Fazer a higiene bucal diária da pessoa, incluindo o uso de clorexidina, para reduzir o risco de colonização bacteriana e pneumonia associada à aspiração.;
  • Não adicionar remédios diretamente nas fórmulas de dieta enteral, para evitar incompatibilidades, obstrução da sonda ou alteração no efeito do medicamento.

Além disso, é importante que a equipe médica também fique alerta a sinais de intolerância gastrointestinal, como distensão abdominal, náuseas e vômitos.

Possíveis efeitos colaterais e complicações

Durante a dieta enteral podem surgir alguns efeitos colaterais, como diarreia, prisão de ventre, náuseas, vômitos e distensão abdominal.

Além disso, aumento do risco de flutuações na glicose, especialmente hiperglicemia, infecções gastrointestinais, broncoaspiração e pneumonia aspirativa, também são algumas complicações da dieta enteral.

As complicações que podem surgir relacionadas ao dispositivo incluem obstrução da sonda, erosão nas narinas, sinusite, escoriações e úlceras, e deslocamento da sonda, levando ao extravasamento da dieta para a cavidade abdominal, peritonite grave e até risco de óbito.

A síndrome da realimentação também pode ocorrer quando a nutrição é reintroduzida de forma muito agressiva ou rápida em pessoas com desnutrição severa ou em jejum prolongado.

Quando não é indicada

A dieta enteral não é indicada para pessoas com em situações de instabilidade hemodinâmica severa e metabólica, como quadro de choque não controlado, acidose lática e acidose metabólica grave e hipoxemia.

Pessoas com isquemia intestinal, obstrução intestinal, síndrome do intestino curto, síndrome compartimental abdominal e sangramento ou hemorragia digestiva alta não controlada, também não devem fazer esta dieta.

Além disso, a dieta enteral também é contraindicada para pessoas com intolerância e estase gástrica, e fístula de alto débito, quando não for possível posicionar a sonda em uma região distal à fístula.



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